segunda-feira, 27 de outubro de 2014

NEGROS: Uma força ignorada


Por Rosane Garcia

A chance de um jovem negro, entre 15 e 29 anos, morrer na região metropolitana do Distrito Federal é 2,9 vezes maior do que um não negro na mesma faixa etária. Por causas externas, como acidentes, esse risco sobe para 4,4. Mas, por homicídio, o perigo é, em média, 5,7 vezes mais potencializado e chega a 15,6, particularmente em Águas Lindas (GO). Os dados foram apresentados, no meio da semana passada, pelo Núcleo de Estudos Populacionais da Codeplan, na publicação Jovens negros e não negros: mortalidade por causas externas, na área metropolitana de Brasília, de 2000 a 2012, que considerou o DF e mais 12 municípios do Entorno. O documento leva em conta um recorte por raça/cor das informações disponíveis no Sistema Integrado de Mortalidade (SIM) do Sistema Único de Saúde (SUS).

Ele permite inferir que as intervenções do poder público foram insatisfatórias na região, situado no limbo, entre Brasília e Goiás. Revela também que o racismo não é apenas um aspecto ideológico, mas uma atitude que se materializa pela eliminação dos jovens afrodescendentes. Essa realidade é piorada pela a agressividade das forças de segurança pública, que utiliza do falso argumento de que o indivíduo negro resiste ao comando da autoridade.

A edição do Mapa da Violência 2014 revela que, de 2002 a 2012, o número de homicídios passou de 49.695 para 56.337, um incremento de 13,4%, superando aumento populacional de 11,1%. Somente em 2012, a taxa de homicídios por 100 mil habitantes chegou a 29, quase três vezes maior do que o estabelecido pela Organização Mundial de Saúde (10). Ou seja, a violência, há muito, é uma epidemia no país e, na maioria das unidades da Federação, o povo negro é o principal alvo, como ocorre no Distrito Federal e nos municípios dos arredores.

Hoje, a população negra corresponde a 55% dos brasileiros votantes. Apesar da crescente onda de racismo, mitigada pela figura jurídica da injúria racial, o processo eleitoral ignorou essa maioria de habitantes do país. Não houve referência à necessidade de estabelecimento de políticas voltadas para esse público, sobretudo para coibir as diferentes expressões de  violência das quais são vítimas. Os programas existentes não têm respaldo na estrutura de oferta de serviços do Estado, portanto, não surtem o efeito desejado.

A falta de visibilidade do povo negro se deve, em boa parte, à ausência dele do cenário político, assim como ocorre com as mulheres, que somaram 74,4 milhões de eleitoras, 6 milhões a mais do que em 2010. Enquanto a lei exige dos partidos reservar 30% das vagas a cargos eletivos para o público feminino, nada os obriga a garantir o mesmo espaço para os negros. Daí, a ausência de representantes afro-brasileiros no Legislativo, para que cumpram o papel de porta-voz das demandas reprimidas da população negra. Não é o Estado que resolverá essa questão, mas a organização dos negros, que deverá se impor frente às instâncias de poder e dos fóruns populares, levando em conta o seu potencial de votos. E vamos para 2018.
(Artigo publicado na edição de hoje do jornal Correio Braziliense)

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

E o meio ambiente? Sumiu

Por Rosane Garcia

No próximo domingo, voltaremos às urnas para o segundo turno das eleições. Foram mais de 90 dias de propaganda eleitoral, que trouxeram aos eleitores cenas e discursos enfadonhos, engraçados e propostas inacreditáveis. Apesar das cenas bizarras e de todas as críticas à falta de criatividade dos programas e do elevado número de partidos, que despejaram centenas de postulantes a vagas do Legislativo e do Executivo, o momento político foi fantástico. É uma grande conquista do povo brasileiro, considerando que, meio século atrás, vivíamos à sombra asquerosa do obscurantismo, amargurados e sofridos pelas atrocidades da ditadura militar.

A campanha deste ano foi marcada por duelos agressivos entre os concorrentes à Presidência da República.  A corrupção, que, há muito se espalhou pelos organismos públicos como metástase, afeta órgãos vitais em todas as instâncias de poder e marcou o tom dos debates. A troca de acusações sobre quem foi o mais leviano ou criminoso no trato da coisa pública furtou o lugar de temas substantivos no dia a dia dos cidadãos. Foram excluídos das discussões, entre outros, assuntos como racismo, aborto, homofobia, as várias expressões de intolerância, mobilidade e reforma urbana e segurança em todos os aspectos.

Mas o que causou surpresa foi a indiferença às questões ambientais pelos que pretendem comandar o Brasil. A dimensão, a diversidade e a riqueza do patrimônio natural nacional colocam o país em posição de destaque frente às demais nações em todos os fóruns globais e, sobretudo, no que se refere a políticas para mitigar os efeitos rigorosos das mudanças climáticas.

Hoje, o país, enfrenta uma das piores secas das últimas seis décadas. São Paulo, a mais rica unidade de Federação, agoniza com a falta de água, que pune cerca de 10 milhões de brasileiros atendidos pelo sistema Cantareira. A crise bate à porta dos que moram na área da bacia do Paraíba do Sul, no Rio de Janeiro. A nascente do São Francisco secou e a tragédia se espalha ao longo do rio, o que compromete a capacidade de fazer a integração nacional. Brasília, há muito, vive sob estresse hídrico.

Os conflitos pela água estão na agenda diária de milhões de brasileiros, mas à margem do debate político. Indiscutível que inflação, as oscilações do Produto Interno Bruto (PIB), do mercado de capitais, do desempenho da indústria e outros componentes da macroeconomia têm profundo reflexo no dia a dia de cada brasileiro. Mas, ainda assim, é lamentável que a importância do patrimônio natural, sobretudo da água, para a vida de todos tenha sido negligenciado no processo eleitoral.
(Artigo publicado na edição de hoje do jornal Correio Braziliense)


quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Peixes vão morrer na lama

No fim de maio, o Viva Cerrado antecipou a dramática situação do Rio São Francisco. Em entrevista exclusiva ao blog,  Silvia Freedmann Ruas Durães, presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Entorno da Represa de Três Marias e secretária executiva da Câmara Consultiva Regional do Alto Francisco do Comitê Federal do Rio São Francisco, previu que os peixes da represa da hidrelétrica de Três Marias morreriam afogados na lama. Segundo ela, 240 dos 504 municípios do alto São Francisco estavam agonizando devido à estiagem prolongada. Além disso, a hegemonia do setor elétrico agravava a situação das cidades às margens do Velho Chico. Para ilustrar a situação dramática, Silvia citou a medida judicial adotada pela Prefeitura de Pirapora, a fim de garantir a vazão de 250m³/s da barragen de Três Marias para garantir o abastecimento da cidade.A principal nascente do Rio São Francisco, na Serra da Canastra, secou. A notícia surpreendeu a todos e não deixa dúvida sobre a dimensão a dramática situação do corpo hídrico.

(Ver matéria Colapso em Três Marias  http://viva-cerrado.blogspot.com.br/2014/05/colapso-em-tres-marias.html)

TNC e Syngenta vão promover recuperação de áreas degradadas no Cerrado

São Paulo (25/9) - A organização ambiental global The Nature Conservancy (TNC) e uma das líderes mundiais em soluções para o campo Syngenta, que trabalham em conjunto desde 2009 pela conservação do Cerrado brasileiro, acabam de assinar um acordo para a ampliação do seu projeto Soja+Verde.

O objetivo da segunda fase do projeto é apoiar os produtores rurais do Alto Teles Pires, região no centro do estado de Mato Grosso, na restauração de áreas degradadas em suas propriedades, para que eles cumpram as exigências do Código Florestal e, com isso, ajudem a reforçar a produção sustentável de alimentos.

As organizações vão criar o primeiro Plano de Negócios de Restauração Florestal da região, por meio do diálogo com produtores, prefeituras e especialistas. A ideia é detalhar quais são os desafios dos produtores para restaurar áreas que precisam ser recuperadas e oferecer aos governos locais sugestões de como superar esses gargalos, além de apoiar algumas das soluções.

Por exemplo, uma das demandas mais comuns dos produtores empenhados na restauração é a dificuldade em obter sementes e mudas de espécies nativas, em quantidade adequada e a preços acessíveis. O plano que TNC e Syngenta vão construir deve ajudar as prefeituras e a iniciativa privada da região a se capacitarem para oferecer esses insumos, levando em conta, ainda, que esta pode ser uma alternativa de ampliação do emprego e da renda na região, por meio do incentivo ao trabalho de viveiristas, coletores de sementes e planejadores.

"Vamos prover treinamentos e informações para estimular a organização da cadeia produtiva, desde a produção de sementes até a organização de viveiros e prestação de serviços no campo", explica Gina Timótheo, coordenadora da TNC em Mato Grosso.

Resultados concretos no campo

As ações da segunda fase do projeto Soja+Verde vão complementar os avanços obtidos na primeira etapa. De 2009 a 2013, TNC e a Syngenta se concentraram em estimular, em 12 municípios de Mato Grosso, a expansão do Cadastro Ambiental Rural (CAR), uma espécie de raio-X ambiental de cada propriedade. O projeto ajudou a mapear mais de 7 milhões de hectares, uma área maior do que a do estado do Rio Grande do Norte. Com isso, governos e produtores ganharam acesso a dados atualizados dos passivos ambientais das propriedades rurais e puderam avaliar, individualmente, quais áreas precisavam ser restauradas, para cumprir o que exige a legislação ambiental. Agora, com o Plano de Negócios da Restauração Florestal, a proposta é que a comunidade atue em conjunto para facilitar a restauração e, assim, completar o esforço de adequação ambiental da região.

"A colaboração com a TNC é um dos principais projetos ligados ao The Good Growth Plan, iniciativa global de fomento à produção sustentável de alimentos liderada pela Syngenta. A recuperação de dois milhões de hectares de áreas à beira da degradação, convertendo-as em terras cultiváveis, bem como o desenvolvimento de soluções para terras de baixa fertilidade, formam um dos pilares do plano", afirma Leandro Conti, diretor de Assuntos Corporativos da Syngenta.

Sobre a TNCA TNC é a maior organização de conservação ambiental do mundo. Está em mais de 35 países, adotando diferentes estratégias com a missão de conservar as terras e águas das quais a vida depende. No Brasil, onde atua há 25 anos, a TNC promove iniciativas nos principais biomas brasileiros – Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica e Pantanal –, com o objetivo de compatibilizar o desenvolvimento econômico e social dessas regiões com a conservação dos ecossistemas naturais. Atualmente, a organização e seus mais de um milhão de membros ajudam a proteger 130 milhões de hectares no mundo. Saiba mais em www.tnc.org.br.

Sobre a SyngentaA Syngenta é uma das maiores empresas do mundo, com mais de 28.000 funcionários em mais de 90 países dedicados ao nosso propósito: trazer o potencial das plantas para a vida. Por meio de ciência de ponta, alcance global e compromisso com nossos clientes, ajudamos a aumentar a produtividade das plantações, proteger o meio ambiente e melhorar a saúde e a qualidade de vida. Para mais informações sobre nós, acesse www.syngenta.com.   

Assessoria de ImprensaApproach Comunicação IntegradaMelissa Cerozzi – melissa.cerozzi@approach.com.br (11) 3846–5787

Fonte: Syngenta

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Nova rota para o planeta


Ciclistas brasiliense (Foto:Ag.Brasil)
Rosane Garcia

O 2º Passeio Ciclístico da Primavera Tempo de Plantar, promovido pelo projeto Ser Sustentável, do Correio, ocorreu ontem, uma semana após Brasília ser visitada pelo teólogo da libertação, filósofo e ambientalista Leonardo Boff, um dos autores da Carta da Terra. Coincidência? Provavelmente, não. Ainda ontem aconteceram mais de 1.500 eventos em 133 países de mobilização mundial pelo clima. No Brasil, o Rio de Janeiro foi palco de uma caminhada, em Copacabana. Hoje é o Dia Mundial sem Carro, mais uma ação voltada à melhoria das condições do planeta.

A Caminhada pelo Clima foi realizada em importantes cidades do mundo, como Berlim, Londres, Vancouver, Melbourne, na Austrália, e Nova Delhi, na Índia. O intuito é pressionar os líderes globais, que, no próximo dia 30, estarão reunidos, em Nova York, na Cúpula do Clima, para aprovarem metas mais ousadas, a fim de reduzir as emissões de gases de efeito estufa. No Brasil, o objetivo da ação desse domingo foi sensibilizar o governo a investir no desmatamento zero.

Todas essas iniciativas, com engajamento cada vez maior de pessoas, revelam que cresce a parcela da sociedade consciente de que a vitalidade do planeta está se exaurindo, frente aos modelos econômicos voltados à exploração desmedida do patrimônio natural e ao incentivo a um consumo inadequado.

Uma semana atrás, na palestra sobre sustentabilidade, Boff alertou que a Terra está no seu limite. Segundo ele, a elevação da temperatura global pode ser comparada à febre que nos alerta de que algo não vai bem em nosso organismo. Portanto, podemos relacionar a chuva intensa ao choro convulsivo, frente à doença que está se agravando.

Nos últimos anos, os brasilienses têm percebido que a seca e o calor são mais intensos, que as chuvas chegam mais fortes e causam danos à cidade. Isso se repete em muitos outros pontos do país e do planeta. As tragédias por fenômenos climáticos provocam grandes comoções, sofrimento pelas perdas humanas e materiais, transformações nas paisagens e muitos outros efeitos ruins para a vida de todos.

Assim, quando centenas de pessoas aceitam o convite para um passeio ciclístico, é possível perceber que elas estão conscientes de que é preciso mudar os paradigmas do consumo e poupar o planeta. Daí, é fundamental rever o sistema de transporte e diminuir o número de veículos em circulação.

Essa lógica aplicada ao transporte pode se estender às políticas econômicas e sociais. Daí, a importância de um envolvimento crescente da sociedade na definição de projetos enquadrados nos parâmetros da sustentabilidade. Cada cidadão tem que se sentir parte viva de cada de pedacinho do planeta, para, dessa forma, poupá-lo de agressões.
(Artigo publicado na edição de hoje (22/9) do jornal Correio Braziliense)